Sou maior por dentro do que por fora.
E,
às vezes,
essa concentração de alma magoa.
"não me perguntes quem sou. não me perguntes nada. eu não sei responder a todas as perguntas do mundo. pousa os lábios sobre a página. devagar,muito devagar. vamos beijar-nos."
segunda-feira, maio 04, 2009
quinta-feira, agosto 07, 2008
A caixa de guardar corações
quarta-feira, abril 16, 2008
terça-feira, fevereiro 12, 2008
Reinventar
Sentiu a pedra balançar no bolso e a mão deslizou pelo tecido para a encostar ao corpo. A mão na pedra. A pedra na mão. Não pensou em todas as outras pedras que já tinham caído do bolso no caminho. Em todas as que desapareceram da mão. Em todas as que esqueceu em bolsos maiores. A pele gasta por outras erosões tacteava agora esta pedra tão espantosamente igual às outras, tão inexplicavelmente diferente. Na memória da mesma mão ficaram marcadas reentrâncias, saliências, texturas dessa pedra: impressões digitais. Então envolveu-a e num movimento tão preciso como irreflectido, atirou-a para o chão, onde deixou de a distinguir de outras tantas pedras.
Pelo menos esta sei como perdi.
quinta-feira, novembro 29, 2007
De terra e de mar
Com as mãos sujas, mãos de terra e de sol, cobriu os dois olhos de trevas. E nas trevas um barco pequeno e um mar revolto e uma luta justa com um magnânimo peixe e o encontro com as sereias e as solitárias conversas com o deus dos mares e a frescura de uma felicidade de sonho. Lá longe, no grande azul, o Sol já se punha.
A inoportuna consciência do trabalho por fazer acordou-o.
quinta-feira, junho 14, 2007
Pequeno Amor
A velha levantou os olhos do bordado e viu-o chegar. Quase delicado, quase cambaleante, cada um dos passos que o tornavam mais e mais próximo da postura ancestral da mulher deixava no chão de pedra uma marca de areia.
Quando pousou a mão sobre o ombro da velha que o tempo havia feito gruta, fê-lo com firmeza e com um sorriso ondulante que a fez lembrar a sua primeira e única viagem de barco.
O baloiçar da cadeira parou a um gesto dele. Com a sensualidade e o cuidado ternurento de quem despe a amada, ele abriu a romã. Trincou o interior rosado e o fruto pareceu ceder a um arrepio de carícia. Voltou a trincar, uma e outra vez, num prolongamento cruel do olhar cansado e atento da velha, pousado sobre os lábios e os bagos sumarentos.
Depois de segundos eternos os lábios dele selaram-se e, com ansiedade, estendeu-lhe o que restava do fruto gotejante. A frágil mão dela envolveu o pulso dele e empurrou mão e fruto com determinação. Não provou. Não ia sujar o bordado.
O ranger da porta havia já antecedido outro e outro e outro pequeno amor.
quarta-feira, maio 02, 2007
Pegadas
Os meus sapatos estão cansados. Rasgados, alargados, sujos. Sapatos.
Suportam três anos de pesos pesados e outros mais leves. Carregam tons de negro e azul por dentro. Trazem pedaços soltos de solos e lembranças por fora.
Os tacões gastos esqueceram já a determinação de contar quantos foram os pisos que galgaram em corridas escuras e esvoaçantes. Perderam a ansiedade de descobrir novos trilhos. Deixam-se ficar, preguiçosos, no único chão que reconhecem como seu e é sob a melancolia do cheiro a terra molhada que lembram o melódico eco do toc-toc pela calçada.
Sapatos. São só sapatos. Mas eu não posso continuar descalça...