Ali.
Sentada na escada fria, os cabelos num desalinho de vendaval, o casaco comprido encostado ao corpo com a pressão de um abraço, o olhar cansado perdido algures entre sonho e realidade.
Ela.
Ergueu os olhos para ele e brilhou. Sorridente. Feliz. Expectante. Toda Luz. Levantou-se com a graciosidade de quem vai levantar voo, encheu a boca suave e "Olá". Um "Olá" morno, aconchegante, um "Olá" que soava a "Para Sempre".
Do bolso tirou um pequeno papel cuidadosamente dobrado em mil. Como um nascer-do-Sol, ficava mais e mais luminosa a cada centímetro que a sua mão se aproximava da dele.
Ele, ainda frio de surpresa, ainda manhã de silêncio, colheu o papel, desdobrou-se nele mil vezes e viu nas letras já esbatidas o nome que trazia gravado na memória, a grafia de uma mão inalcançável que admirava tanto, tanto, tanto. Uma mão do outro lado de um mundo que ele havia feito seu.
"Foi ele mesmo que assinou." A voz ainda morna, ainda doce.
"Obrigado. Muito obrigado". E foi só. Pousou-lhe um beijo rápido na bochecha e seguiu. Ele, ainda Inverno por dentro, não estava pronto para a Primavera que ela era.
Ali.
Quando a neve começou a cair, um reflexo mostrou as duas lágrimas que ela trazia penduradas nas orelhas.