quarta-feira, fevereiro 10, 2010

II - Ainda Inverno

Saiu de casa de manhã. Como todos os dias. Depois do banho demorado. Como todos os dias. Depois de se vestir com precisão de ritual. Como todos os dias. Depois de engolir o café apressado. Como todos os dias. E naquele dia, ela.

Ali.

Sentada na escada fria, os cabelos num desalinho de vendaval, o casaco comprido encostado ao corpo com a pressão de um abraço, o olhar cansado perdido algures entre sonho e realidade.

Ela.

Ergueu os olhos para ele e brilhou. Sorridente. Feliz. Expectante. Toda Luz. Levantou-se com a graciosidade de quem vai levantar voo, encheu a boca suave e "Olá". Um "Olá" morno, aconchegante, um "Olá" que soava a "Para Sempre".
Do bolso tirou um pequeno papel cuidadosamente dobrado em mil. Como um nascer-do-Sol, ficava mais e mais luminosa a cada centímetro que a sua mão se aproximava da dele.
Ele, ainda frio de surpresa, ainda manhã de silêncio, colheu o papel, desdobrou-se nele mil vezes e viu nas letras já esbatidas o nome que trazia gravado na memória, a grafia de uma mão inalcançável que admirava tanto, tanto, tanto. Uma mão do outro lado de um mundo que ele havia feito seu.

"Foi ele mesmo que assinou." A voz ainda morna, ainda doce.

"Obrigado. Muito obrigado". E foi só. Pousou-lhe um beijo rápido na bochecha e seguiu. Ele, ainda Inverno por dentro, não estava pronto para a Primavera que ela era.

Ali.

Quando a neve começou a cair, um reflexo mostrou as duas lágrimas que ela trazia penduradas nas orelhas.

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

I - Último sentido

Virou-se na cama e estendeu o braço moreno para chegar à caixa. A tampa de madeira escura, lisa, envelhecida pelo sol e pela lua, cansada de ser tampa, de abrir e fechar, sem outra utilidade que não a de revelar e esconder, fez ranger os gonzos e revelou a amálgama do conteúdo.

Brincos.

Brincos.

Brincos.

De cores, formas, tamanhos vários. De mulher, todos.

A princípio era acaso. Elas partiam e esqueciam-nos nos lençóis ainda quentes, no coração ainda suspirante, na vida ainda em desordem. Ele guardava-os, mais por distracção do que por dedicação. Assim abandonados, acumulados, foram conquistando paixão de coleccionador. Esquecera já os nomes, às vezes até os rostos de quem outrora os usara. Catalogava-os por aromas, sabores, sons de suspiro e gargalhada, palavras, silêncios, ondas assoberbadas de calor e frio. Amor(es).

Não os guardava por capricho nem por vaidade. Guardava-os para o caso de algum dia querer recolher todos os pequenos pedaços de alma que foi esquecendo na história de cada brinco.

segunda-feira, maio 04, 2009

Concentrado

Sou maior por dentro do que por fora.
E,
às vezes,
essa concentração de alma magoa.

quinta-feira, agosto 07, 2008

A caixa de guardar corações

Era grande a curiosidade em conhecer o Bruxo. Em saber o que era exactamente um bruxo. O que fazia. Que formas assumia. Qual o seu cheiro.
Não era raro ouvir a avó comentar com a mãe que "era melhor ir ao Bruxo", assim mesmo, em palavras sussuradas, quase transparentes. Outras palavras usava o pai quando socava a velha mesa de madeira e, com o seu hálito embriagante, exigia que se comesse em silêncio. Palavras roxas, nauseabundas, que cresciam e se alimentavam de luz.
Numa noite corajosa decidiu-se a conhecê-Lo. Deixou as sandálias rotas no quarto e mediu cada passo no soalho ruidoso da casa até sentir nos pés o bafo da terra quente do quintal.
Andou devagar e sem tempo até encontrar uma porta entreaberta. Na divisão abatida, pequena, vazia, só um homem sentado numa esteira. Não, não era o bruxo. Era um velho, muito velho. Cansado. Sozinho.
Disse-lhe "Chegaste" e o menino não compreendeu. Com as mãos senis estendeu-lhe uma pequena caixa de madeira. Escura. Gasta. Velha. Pesada.
"O que é?" perguntou o menino.
"É uma caixa de guardar corações. E é aí que vais levar o meu".

quarta-feira, abril 16, 2008

Por entre os dedos escapam-se-me tempo e omnipresença
Perdida algures entre os meus mundos, vivo em permanente estado de saudade

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Reinventar

Sentiu a pedra balançar no bolso e a mão deslizou pelo tecido para a encostar ao corpo. A mão na pedra. A pedra na mão. Não pensou em todas as outras pedras que já tinham caído do bolso no caminho. Em todas as que desapareceram da mão. Em todas as que esqueceu em bolsos maiores. A pele gasta por outras erosões tacteava agora esta pedra tão espantosamente igual às outras, tão inexplicavelmente diferente. Na memória da mesma mão ficaram marcadas reentrâncias, saliências, texturas dessa pedra: impressões digitais. Então envolveu-a e num movimento tão preciso como irreflectido, atirou-a para o chão, onde deixou de a distinguir de outras tantas pedras.

Pelo menos esta sei como perdi.

quinta-feira, novembro 29, 2007

De terra e de mar

Num arrebatamento de irreverência mais do que de cansaço cravou a enxada na terra seca e caiu de joelhos. Gotas de suor partiam desencontradas da fronte para se unirem silenciosas no maciço pescoço enrugado.
Com as mãos sujas, mãos de terra e de sol, cobriu os dois olhos de trevas. E nas trevas um barco pequeno e um mar revolto e uma luta justa com um magnânimo peixe e o encontro com as sereias e as solitárias conversas com o deus dos mares e a frescura de uma felicidade de sonho. Lá longe, no grande azul, o Sol já se punha.
A inoportuna consciência do trabalho por fazer acordou-o.
Mãos de terra e de sol no cabo nodoso da arrogante enxada. Um puxão. E nada. Outro. E a inércia. De costas vergadas pelo esforço, de olhos arregalados pela força, tombou. O torpor da enxada diluía-se nele. Deitado, fechou as pálpebras morenas e chorou. Vertia na terra o mar que sempre trouxe dentro de si.