segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Alturas

Tomás era grande demais para o amor. No mais literal dos sentidos.

A dissonante distribuição anatómica dos seus 205 centímetros tornavam-no uma opção pouco interessante para o género feminino, cujo soberbo coração não era de todo alheio às questões mais práticas de uma vida a dois.

Tomás invejava o companheirismo que observava na vida alheia sem, no entanto, sentir pena de si próprio. Encarava a cruzada sentimental como uma ambição e não como uma necessidade. Foi quando conheceu o humor vivo e a determinação dela que a ambição se tornou batalha e o condicional, imperativo.

Experimentou técnicas bárbaras para encolher e não houve substância química ou natural que o seu organismo não tivesse processado na vazia tentativa de deixar de a olhar da incontornável perspectiva altiva.

Não soube qual das mezinhas resultou ou qual das insuportáveis torturas se tornou justificável, mas, um dia, acordou mais pequeno. Não era uma diferença notória mas ele, conhecedor experimentado da geografia do seu corpo, percebeu-a.

Não tardou muito até que todos os que rodeavam Tomás notassem o seu inexplicável encolhimento. Também ela notou e essa consonância de tamanhos gerou uma agradável sensação de bem-estar no um que eles eram quando eram dois.

Tomás amou-a e amou-se até ao dia em que acordou, ao lado dela, e se notou mais pequeno.

A dissonância voltara e Tomás não voltou ao corpo dela, nem quando passou a caber na palma da sua mão.

domingo, janeiro 30, 2011

Visão

Quando Noé nasceu, ninguém percebeu que havia nele algo de diferente. Era um ser aparentemente normal e normal era tanto quanto se desejava. Não houve quem desconfiasse de coisa alguma durante a infância. Nem Noé, nem a família. Só na adolescência, com o frutífero convívio com rapazes e raparigas da mesma idade, percebeu que a sua visão da realidade era líquida e fluída e não viscosa e estagnada como a dos demais. 

Noé tinha a límpida capacidade de percorrer o tempo sem  obedecer a leis de linearidade. Olhava uma criança e via-a, com nitidez e realismo, já velha, cansada, já pai e avô de outras crianças como ela. Olhava um idoso e, involuntariamente, perscrutava-lhe os tempos de infância e podia mesmo jurar ser capaz de lhe acariciar os inocentes caracóis. 

De início, atribuiu o facto a um qualquer tipo de vidência. Já tinha ouvido falar de pessoas assim e a repetição do fenómeno, ainda que minoritária, era reconfortante. Foi com crescente desalento que percebeu que os videntes que visitava o eram só em horário de expediente. 

Noé não previa acontecimentos, situações, catástrofes. Noé via, ainda que não o desejasse, o tempo dos outros num escorrido relógio de areia. Tolerava, por isso, melhor todos os defeitos da natureza humana, porque os entendia em perspectiva. Não havia, para Noé, falha ou qualidade permanente e a paixão tornava-se, assim, o único marco temporal distante. 

Um dia, ouviu-a atrás de si. Foi pela voz cálida que se apaixonou. Não pelos olhos de caramelo nem pelos cabelos amenos. Não se permitiu vê-la. Por uma vez, desejou ver um presente que não fosse futuro ou passado. Foi com determinação que entrou em casa do mais velho dos videntes.

Cegue-me, por favor. 

domingo, janeiro 23, 2011

Revolto

Não sabe como ficou assim. Já nem sabe quando. O mal-estar chegou levemente e deu lugar a uma irritação espontânea, que a pouco e pouco se foi ancorando como navio cansado de viagens. A alegria alheia causava-lhe uma impaciência que abeirava a cólera e as gargalhadas, os sorrisos, os abraços eram, para ele, um repugnante espectáculo de humanidade.

Reconhecia-lhes, aos outros, as expressões. Num qualquer tempo passado, como noutra vida, recordava-lhes o efeito na sua própria face, o calor ruborizado, a tensão ascendente dos lábios arqueados, o impulso ancestral do contacto físico. Perdeu-os.

Não sabe como. Já nem sabe quando.

No autocarro, como todos os dias, ergueu um silêncio imponente em sua volta, vítima de uma quarentena auto-prescrita. Olhou o chão enquanto murmurava pensamentos soltos, tentativa inútil de evitar que a felicidade dos outros lhe penetrasse o sistema nervoso.

No banco da frente, uma criança ria. Puxava os cabelos da mãe e ria desalmadamente.

Ele irritava-se.

Irritava-se a mãe.

A criança puxava e ria, ria, ria.

No banco da frente, a mãe eleva a mão aberta, remo pronto a abater-se sobre as águas agitadas da criança, e ele, firme, agarra-lhe o pulso com uma veemência tal que a mulher temeu nunca mais recuperar a vida do membro cativo.

Não sabe como. Mas sabe quando e porquê.

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Amor-perfeito

Chegou a casa. Bateu a porta, lançou as chaves na direcção da tina, sem se importar com o tilintar turbulento do bronze de umas contra o bronze da outra. Encostou a bengala ao sofá. Olhou-a.

Ela, olhos fixos num horizonte imaginário, não o viu. Assim era sempre. Alheada, habitante solitária de uma bolha flutuante.

Não deixou de a olhar, como se essa fosse a derradeira forma de contacto, última esperança de uma ligação suspensa no tempo. Na face dura, ele trazia os sulcos talhados por discussões, sorrisos e esperanças. Há muito que ele deixara de ser ele para passar a ser monumento do amor a ela.

Levantou-a, falou-lhe de tempos futuros e ela ouviu tempos passados. Vestiu-lhe o casaco, penteou-lhe os cabelos cor-de-cinza e, guardando-lhe o braço debaixo do seu, saíram.

Na rua, passeava ao ritmo dela e nunca deixava de falar, sem a olhar, imaginando a resposta, a nova pergunta, a gargalhada.

De súbito, à sua frente atravessou-se um rapaz, que corria num entusiasmo veloz em direcção a uma rapariga de sorriso tímido e coração aberto. Beijaram-se.

Lon

ga

men

te.

O beijo não acabava e ele, sem a olhar, preocupava-se que a cena fosse pouco própria para os olhos dela. Não viu, por isso, que ela, por um segundo, o olhou e lhe disse, sem falar

Desculpa.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Quadro

Nunca se interessara por pintura ou escultura e, no geral, tinha uma certa aversão à palavra exposição. Soava a tédio unilateral, desinteressante, sem envolvência. Acabara perdida naquela mais por falta de propósito do que por intenção, arrastada pelas amigas apreciadoras e entendidas.

Caminhava frente aos quadros, desatenta, alheada, quase insolente. Um pouco atrás do grupo, desfilava indiferente aos comentários entusiasmados, às exclamações de aprovação e aos esgares de repúdio. Foi então que uma qualquer forma atípica de magnetismo lhe atraiu o olhar para a pintura.

Azul.
Azul.
Azul.

O mar azul, a ilha azul, azul o céu também. Eram as sombras que definiam os limites no azul forte e vivo que inundava toda a pintura. Cenário de tempestade, de naufrágio, de noite cerrada que tenta amanhecer.

Sentiu uma atracção quase doentia pelo quadro e, mergulhada num torpor hipnótico

Quanto custa?

À estupefacção volteada das amigas sobrepôs-se o valor. Assustador, desmedido, imenso. À falta de fonte de tais rendimentos, passados alguns meses, esqueceu quadro e paixão.


Quando, anos mais tarde, a terrível notícia lhe chegou aos olhos, era o quadro vivo à sua frente. Cenário de tempestade, de naufrágio, de noite cerrada que tenta amanhecer. A onda abateu-se também, invencível, sobre ela e também ela desapareceu. Nunca um quadro custara semelhante valor.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Bailarina

A culpa é um líquido viscoso que se cola ao interior do corpo e se deixa ficar, parasita intocável de alegria e dignidade.

A caneta interrompeu-se no papel para logo recomeçar, mais abaixo, dançante de traços curvilíneos que descem e sobem e rodopiam, linhas que esticam e encolhem num bailado ensaiado que ela própria coreografava.

Que bonito desenho. 

Ele, enfermeiro de corpos doentes e almas magoadas, respondeu ao teimoso silêncio instalado como se não tivesse percebido a sua presença peçonhenta. 

Porquê uma bailarina?

Na face dela, franziram-se olhos, pestanas, sobrancelhas, numa manifestação unânime de fúria perante a intrusão. Manteve-se, no entanto, em silêncio.

Danças?

A pergunta, percebida como ataque a soldado ferido, incendiou a sua fúria vulcânica e foi com ímpeto que as palavras irromperam, tortuosas e velozes, da gruta silenciosa que a boca fora por tanto tempo.

Se eu danço? Parece-lhe? Vejo que tem olhos e não sei para que os usa mas não será, certamente, para ver. Meta-se na sua vida e faça o seu trabalho.

A voz, por falta de uso, nasceu grave e rouca, dissonante da sua juventude e fragilidade. Ele, surpreso por um só segundo, nada disse. Colheu-a pela cintura, enlaçou-a e não mais a largou durante a música que só naquele quarto do hospital se fez ouvir. Rodopiaram para longe, para cenários quentes e alegres de bailarinos de voltas perfeitas. Ninguém sabe ao certo quanto tempo durou ou se, de facto, aconteceu mas, quando a bailarina voltou à cadeira de rodas, a alma ,ainda dançante, esqueceu que alguma vez havia lá estado.

segunda-feira, novembro 29, 2010

Fotografia

Conhecia-a assim. Sorridente, serena, tão pequena que cabia nas molduras de 15x10 espalhadas pela casa.

A Mãe.

Conhecia-lhe a história também. A avó repetia que trabalhava por um mundo melhor. Cantou-lho em canções de embalar, em canções de banho, em canções de pequeno-almoço de sopas de leite. Inventou histórias em que a Mãe era heroína e o mundo melhorava, de facto, quando lhe aconchegava os cobertores ou, antes ainda, quando as suas pálpebras pequenas cediam perante uma façanha tão grande.

Recebia postais esporádicos, que a avó lhe lia repetidamente, emocionada, mesmo quando ele já dormia. O conteúdo era carinhoso, aconchegante, mas aos seus ouvidos infantis soava sempre distante, voz sépia de fotografia a cores.

Quando cresceu o suficiente para frequentar a escola e percebeu que todas as outras crianças tinham a mãe no lugar onde ele guardava a avó, reservou-lhe um certo rancor. Não entendia que um mundo melhor pudesse ser aquele em que ele não tinha mãe.

Exigiu vê-la. Recusou-se a comer as sopas de leite pela manhã e fechou a boca a qualquer outra tentativa criativa da avó. A luta durou alguns dias até que a mulher, mais preocupada que esgotada, cedeu. Ouviu-a ao telefone. Pedia desculpa num lamento sussurrado. Não prestou atenção porque imaginava, com ansiedade, já sem fome, o colo da mãe, alta, corajosa, heroína de um mundo melhor.

Quando saíram de casa, o frio cortante da madrugada parecia entristecer mais os olhos tristes da avó, escondida sob o lenço branco que trazia à cabeça. Quando o carro parou, viu uma casa grande, guardada por muitos polícias, tal era a importância de quem ali trabalhava. Foram revistados, não fossem levar armas que magoassem quem constrói um mundo melhor. Não percebeu porque os fecharam numa divisão de grades de ferro, juntamente com outros visitantes, antes de os empurrarem para uma grande sala com mesas corridas. Uma sala

Triste

Suja

Cinzenta.

Quando viu a mulher da foto sentada numa mesa ao fundo, pequena, encolhida, de olhos tristes como os da avó, fechou os seus olhos com força e pediu baixinho sopas de leite.