quarta-feira, junho 21, 2006

Limpezas

Quando a mãe lhe perguntou o que estava a fazer respondeu, ainda remexendo no estojo, com o ar mais distraído do mundo "Estou a pintar a minha alma". A mãe arqueou as sobrancelhas dos olhos esbugalhados num primeiro medo de demência infantil, mas depressa encolheu os ombros zombeteiros e continuou a aspirar o tapete.

O miúdo, inclinado sobre a mesa, de língua de fora e joelhos fincados na cadeira, travava a luta da sua vida com uma folha invisível. Fazia pressão para baixo, depois puxava para a direita, inclinava para a esquerda até que, num golpe de mestria, cravou os cotovelos, esfolados de outras lutas, na mesa e sossegou. Sem nunca tirar os cotovelos da superfície de madeira escura, tirou o lapis de cera mais pequenino da caixa. Pintou a folha invisível com grandes pinceladas de laranja-água e desenhou duas bolinhas paralelas e um sorriso logo abaixo a vermelho-carvão.

De repente, deixou-se escorregar da cadeira e com o ar mais cansado e aliviado que alguma vez se viu num miúdo, disse: "Já está. Agora que a vejo nunca mais a perco." E saiu.

A mãe, malabarista de canos de aspirador e panos do pó, num relance de inspectora de higiene e limpeza, gritou horrorizada ao ver a mesa pintada com lápis de cera. Borrifou um pano com líquido apaga-tudo e apagou a alma do miúdo.

quarta-feira, abril 12, 2006

Pretéritos

Não gosto de verbos conjugados. O tempo é prepotente e dissimulado, cobarde quando se esconde na própria conjugação. Faz qualquer acção vergar-se sob o seu peso, responder pela perfeição dos seus pretéritos. Amei? Não.
É no infinitivo que a acção se solta, que é livre de inícios e fins sufocantes. É o infinito a fazer caretas ao tempo. Amar? ...

terça-feira, fevereiro 28, 2006

Pedaços

Sempre pensei que o amor doía. Que nos fazia respirar unicamente o ar que flutua nos pulmões da outra pessoa, como se todo o ar restante fosse ofensivamente impuro. Que o tempo se alongava ou apressava ao ritmo dos batimentos de um sangue inexplicavelmente quente. Que minutos, horas, dias ou semanas de ausência pesam a mesma opressão sobre o peito. Pensei que alguma coisa invisível unia duas pessoas, um cordão suave que pairava sobre tudo e todos. Um canal por onde passavam pedacinhos pequeninos de dois cosmos em sintonia. Sempre pensei que era quando se rompia esse cordão que o amor doía. E é verdade.

Só pedacinhos de cosmos perdidos na imensidão do infinito.

Não gosto do amor.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Luxúria

Lençóis de seda vermelha amontoados no fim da cama, ainda quentes das carícias sôfregas. No chão o avesso da lingerie marca os passos apressados vindos da porta. Os perfumes copulam e adormecem, inebriantes e inebriados. O ar do quarto vazio pesa. Pesa como o silêncio de tudo o que ficou por dizer.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Só palavras

Quando ela lhe disse que não o queria ele saiu. De costas voltadas não viu os lábios dela esboçarem, em silêncio, a palavra "perder".

sexta-feira, setembro 16, 2005

A palavra

Era uma palavra saltitona, temperada, selvagem até. Fugia de boca em boca, da vontade dos que a queriam dizer para o embaraço dos que não a diziam. Não parava nunca. Era um grande mistério, presumia a palavra, de peito cheio de orgulho emproado.
Ria. Ria gargalhadas líquidas, como cascatas de matas escondidas e brincava por entre as chamas dormentes do pôr-do-Sol.
Um dia, na hora do jantar, a palavra gostou do céu da boca do rapaz. Acomodou-se, para uma sesta rápida. E o rapaz, sem luz de velas, sem pôr do Sol, sem cascatas ondulantes, gaguejando sem ser gago, falou do Amor. A rapariga ficou como estátua de gelo expectante.
Vendo-se assim, usada, abusada, a palavra acordou da sua sesta ofendida e saiu daquela boca jovem para não mais voltar. "Só tenho sossego na copa das árvores" dizia, enfurecida.
O rapaz, sem a palavra selvagem, não disse mais que palavras gastas, vendidas de porta em porta. A rapariga riu e foi embora.
O rapaz nunca mais falou do Amor, mas há quem diga que, ainda hoje, todas as noites, pela hora do jantar, quando as crianças descem da brincadeira na copa das árvores, um velhinho encostado ao tronco ergue os olhos para o verde, como se esperasse alguma coisa que vai cair.