segunda-feira, maio 04, 2009

Concentrado

Sou maior por dentro do que por fora.
E,
às vezes,
essa concentração de alma magoa.

quinta-feira, agosto 07, 2008

A caixa de guardar corações

Era grande a curiosidade em conhecer o Bruxo. Em saber o que era exactamente um bruxo. O que fazia. Que formas assumia. Qual o seu cheiro.
Não era raro ouvir a avó comentar com a mãe que "era melhor ir ao Bruxo", assim mesmo, em palavras sussuradas, quase transparentes. Outras palavras usava o pai quando socava a velha mesa de madeira e, com o seu hálito embriagante, exigia que se comesse em silêncio. Palavras roxas, nauseabundas, que cresciam e se alimentavam de luz.
Numa noite corajosa decidiu-se a conhecê-Lo. Deixou as sandálias rotas no quarto e mediu cada passo no soalho ruidoso da casa até sentir nos pés o bafo da terra quente do quintal.
Andou devagar e sem tempo até encontrar uma porta entreaberta. Na divisão abatida, pequena, vazia, só um homem sentado numa esteira. Não, não era o bruxo. Era um velho, muito velho. Cansado. Sozinho.
Disse-lhe "Chegaste" e o menino não compreendeu. Com as mãos senis estendeu-lhe uma pequena caixa de madeira. Escura. Gasta. Velha. Pesada.
"O que é?" perguntou o menino.
"É uma caixa de guardar corações. E é aí que vais levar o meu".

quarta-feira, abril 16, 2008

Por entre os dedos escapam-se-me tempo e omnipresença
Perdida algures entre os meus mundos, vivo em permanente estado de saudade

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Reinventar

Sentiu a pedra balançar no bolso e a mão deslizou pelo tecido para a encostar ao corpo. A mão na pedra. A pedra na mão. Não pensou em todas as outras pedras que já tinham caído do bolso no caminho. Em todas as que desapareceram da mão. Em todas as que esqueceu em bolsos maiores. A pele gasta por outras erosões tacteava agora esta pedra tão espantosamente igual às outras, tão inexplicavelmente diferente. Na memória da mesma mão ficaram marcadas reentrâncias, saliências, texturas dessa pedra: impressões digitais. Então envolveu-a e num movimento tão preciso como irreflectido, atirou-a para o chão, onde deixou de a distinguir de outras tantas pedras.

Pelo menos esta sei como perdi.

quinta-feira, novembro 29, 2007

De terra e de mar

Num arrebatamento de irreverência mais do que de cansaço cravou a enxada na terra seca e caiu de joelhos. Gotas de suor partiam desencontradas da fronte para se unirem silenciosas no maciço pescoço enrugado.
Com as mãos sujas, mãos de terra e de sol, cobriu os dois olhos de trevas. E nas trevas um barco pequeno e um mar revolto e uma luta justa com um magnânimo peixe e o encontro com as sereias e as solitárias conversas com o deus dos mares e a frescura de uma felicidade de sonho. Lá longe, no grande azul, o Sol já se punha.
A inoportuna consciência do trabalho por fazer acordou-o.
Mãos de terra e de sol no cabo nodoso da arrogante enxada. Um puxão. E nada. Outro. E a inércia. De costas vergadas pelo esforço, de olhos arregalados pela força, tombou. O torpor da enxada diluía-se nele. Deitado, fechou as pálpebras morenas e chorou. Vertia na terra o mar que sempre trouxe dentro de si.

quinta-feira, junho 14, 2007

Pequeno Amor

Não era um grande amor nem sequer um amor assim-assim. Cheirava a água e nos passos trazia um som cor de cereja. Os pesados caracóis de canela pendiam em cachos sobre os olhos transparentes e nas mãos de pardal trazia uma romã.
A velha levantou os olhos do bordado e viu-o chegar. Quase delicado, quase cambaleante, cada um dos passos que o tornavam mais e mais próximo da postura ancestral da mulher deixava no chão de pedra uma marca de areia.
Quando pousou a mão sobre o ombro da velha que o tempo havia feito gruta, fê-lo com firmeza e com um sorriso ondulante que a fez lembrar a sua primeira e única viagem de barco.
O baloiçar da cadeira parou a um gesto dele. Com a sensualidade e o cuidado ternurento de quem despe a amada, ele abriu a romã. Trincou o interior rosado e o fruto pareceu ceder a um arrepio de carícia. Voltou a trincar, uma e outra vez, num prolongamento cruel do olhar cansado e atento da velha, pousado sobre os lábios e os bagos sumarentos.
Depois de segundos eternos os lábios dele selaram-se e, com ansiedade, estendeu-lhe o que restava do fruto gotejante. A frágil mão dela envolveu o pulso dele e empurrou mão e fruto com determinação. Não provou. Não ia sujar o bordado.

O ranger da porta havia já antecedido outro e outro e outro pequeno amor.

quarta-feira, maio 02, 2007

Pegadas

Os meus sapatos estão cansados. Rasgados, alargados, sujos. Sapatos.

Suportam três anos de pesos pesados e outros mais leves. Carregam tons de negro e azul por dentro. Trazem pedaços soltos de solos e lembranças por fora.
Os tacões gastos esqueceram já a determinação de contar quantos foram os pisos que galgaram em corridas escuras e esvoaçantes. Perderam a ansiedade de descobrir novos trilhos. Deixam-se ficar, preguiçosos, no único chão que reconhecem como seu e é sob a melancolia do cheiro a terra molhada que lembram o melódico eco do toc-toc pela calçada.

Sapatos. São só sapatos. Mas eu não posso continuar descalça...