Nunca se interessara por pintura ou escultura e, no geral, tinha uma certa aversão à palavra exposição. Soava a tédio unilateral, desinteressante, sem envolvência. Acabara perdida naquela mais por falta de propósito do que por intenção, arrastada pelas amigas apreciadoras e entendidas.
Caminhava frente aos quadros, desatenta, alheada, quase insolente. Um pouco atrás do grupo, desfilava indiferente aos comentários entusiasmados, às exclamações de aprovação e aos esgares de repúdio. Foi então que uma qualquer forma atípica de magnetismo lhe atraiu o olhar para a pintura.
Azul.
Azul.
Azul.
O mar azul, a ilha azul, azul o céu também. Eram as sombras que definiam os limites no azul forte e vivo que inundava toda a pintura. Cenário de tempestade, de naufrágio, de noite cerrada que tenta amanhecer.
Sentiu uma atracção quase doentia pelo quadro e, mergulhada num torpor hipnótico
Quanto custa?
À estupefacção volteada das amigas sobrepôs-se o valor. Assustador, desmedido, imenso. À falta de fonte de tais rendimentos, passados alguns meses, esqueceu quadro e paixão.
Quando, anos mais tarde, a terrível notícia lhe chegou aos olhos, era o quadro vivo à sua frente. Cenário de tempestade, de naufrágio, de noite cerrada que tenta amanhecer. A onda abateu-se também, invencível, sobre ela e também ela desapareceu. Nunca um quadro custara semelhante valor.
"não me perguntes quem sou. não me perguntes nada. eu não sei responder a todas as perguntas do mundo. pousa os lábios sobre a página. devagar,muito devagar. vamos beijar-nos."
quinta-feira, dezembro 30, 2010
Quadro
quarta-feira, dezembro 29, 2010
Bailarina
segunda-feira, novembro 29, 2010
Fotografia
Conhecia-a assim. Sorridente, serena, tão pequena que cabia nas molduras de 15x10 espalhadas pela casa.
A Mãe.
Conhecia-lhe a história também. A avó repetia que trabalhava por um mundo melhor. Cantou-lho em canções de embalar, em canções de banho, em canções de pequeno-almoço de sopas de leite. Inventou histórias em que a Mãe era heroína e o mundo melhorava, de facto, quando lhe aconchegava os cobertores ou, antes ainda, quando as suas pálpebras pequenas cediam perante uma façanha tão grande.
Recebia postais esporádicos, que a avó lhe lia repetidamente, emocionada, mesmo quando ele já dormia. O conteúdo era carinhoso, aconchegante, mas aos seus ouvidos infantis soava sempre distante, voz sépia de fotografia a cores.
Quando cresceu o suficiente para frequentar a escola e percebeu que todas as outras crianças tinham a mãe no lugar onde ele guardava a avó, reservou-lhe um certo rancor. Não entendia que um mundo melhor pudesse ser aquele em que ele não tinha mãe.
Exigiu vê-la. Recusou-se a comer as sopas de leite pela manhã e fechou a boca a qualquer outra tentativa criativa da avó. A luta durou alguns dias até que a mulher, mais preocupada que esgotada, cedeu. Ouviu-a ao telefone. Pedia desculpa num lamento sussurrado. Não prestou atenção porque imaginava, com ansiedade, já sem fome, o colo da mãe, alta, corajosa, heroína de um mundo melhor.
Quando saíram de casa, o frio cortante da madrugada parecia entristecer mais os olhos tristes da avó, escondida sob o lenço branco que trazia à cabeça. Quando o carro parou, viu uma casa grande, guardada por muitos polícias, tal era a importância de quem ali trabalhava. Foram revistados, não fossem levar armas que magoassem quem constrói um mundo melhor. Não percebeu porque os fecharam numa divisão de grades de ferro, juntamente com outros visitantes, antes de os empurrarem para uma grande sala com mesas corridas. Uma sala
Triste
Suja
Cinzenta.
Quando viu a mulher da foto sentada numa mesa ao fundo, pequena, encolhida, de olhos tristes como os da avó, fechou os seus olhos com força e pediu baixinho sopas de leite.
quarta-feira, novembro 17, 2010
Cão
Ninguém percebia ao certo porque é que ele tinha escolhido aquele cão.
O animal, coxo, de pêlo baço e olhos permanentemente remelados, arrastava-se a si e aos seus muitos anos caninos nos curtos e dolorosos passeios nocturnos, cada vez mais dolorosos, cada vez mais curtos.
Ele próprio, ainda jovem, ainda sonhador de mundos perfeitos, não percebia porque é que, naquela bafienta manhã passada no canil, havia insistido em levar para casa o Cão, a despeito de todas as tentativas da responsável para o dissuadir. Era uma química irracional a que os unia (se é que as há racionais). Ele não percebia de velhice, o Cão já não recordava a juventude, e assim se acompanhavam, um pé e uma pata em cada mundo.
Numa manhã de Inverno, o porteiro encontrou-o na rua, à porta do prédio.
Nu. Gelado. Sem sentidos.
O homem levou o rapaz para casa, deitou-o, procurou cobertores que lhe cobrissem o tom azulado da tez, botijas de água quente que lhe devolvessem os pés ao chão.
O Cão, coxo, remeloso, arrastado, mas sobretudo velho, lançou-se sobre o corpo inerte e, naquela manhã bafienta, deixou-se ficar e devolveu-lhe todo o calor acumulado desde a saída do canil.
Quando despertou, outra vez quente, outra vez jovem, deixou de acreditar em mundos perfeitos. Era o Cão quem jazia inerte, agora, cumprido o mais humano dos desígnios.
domingo, novembro 07, 2010
Sem saída
Deitada, como sempre estava, sentiu o cheiro familiar da cebola a dourar no azeite. Ouvia a filha cantarolar uma qualquer melodia inventada enquanto o sol se punha, preguiçoso.
Quis voltar-se na cama, mas não a chamou. Doía-lhe aquela dependência esmagadora de amor-próprio, aquele lento desgaste de dignidade. O cantar aliterado era reconfortante. Fechava os olhos e era ela quem cantava, cozinhava e geria uma casa de sete. Era ela quem voltava os filhos na cama, quem supria as suas necessidades infantis.
Acordou da fantasia, velho traste imóvel, com o bater exacerbado da porta. Aquele bater de porta que dissolvia cheiros, sons e sabores. A cantoria parou e logo um silêncio atemorizado, nauseante.
Não tardou a ouvir o grito masculino, mote viril de um poder cobarde que se alimenta de vida e alegria. Não voltou a ouvir a voz límpida da filha até que o som de uma bofetada se impôs, eco repetido de um pesadelo real. Um pequeno grito, agora abafado, tímido, já não límpido, já não cantarolado.
Não gritou também ela, não chorou. Encolheu-se mais nos lençóis e rezou baixinho à morte, para que chegasse depressa.
quarta-feira, outubro 20, 2010
Diferenças
O seu filho é diferente.
Um qualquer líquido frio, viscoso, transparente demorou-se no topo da sua cabeça para logo descer, insolente vulcão, até aos pés. Era uma tristeza dominadora, daquelas que subjuga e faz todas as memórias felizes reféns de um assalto escuro e silencioso. Olhou o filho.
Sentado à pequena mesa colorida do hospital, era uma criança normal. Os lápis eram iguais aos das outras crianças, as cores as mesmas, os traços idênticos. E aquele médico
O seu filho é diferente.
Diferente seria a ausência de amigos na escola, o silêncio opressivo face a um cumprimento ou pergunta, a insistência inabalável em brincar com os dinossauros, sempre e só com os dinossauros, a reticência atemorizada em trocar o pijama azul, já curto para pernas e braços, já fino demais para aquecer, já não azul.
O médico continuava a explicação, lançando palavras no abismo para onde as palavras caem quando ninguém as quer. A sua vontade era de trocar de papéis com o filho, deixar que ele assumisse os seus sapatos 40, as suas responsabilidades de crescido, deixar que ele lhe dissesse, ao seu eu criança, que tudo vai correr bem, que este médico é um pesadelo e que não tarda vamos acordar confortáveis e protegidos dentro do pijama azul.
Diferente pode ser bom, não é, filho?
Foi a única frase, oca, vazia, inútil, que o seu cérebro lhe enviou, também ele oco, vazio e inútil por aqueles momentos.
Ignorando a interpelação do médico, como havia feito com todas as anteriores, anulando-o do quadro hospitalar, a criança levantou-se e, oferecendo a pequena mão à mão inerte do pai
Diferente é diferente. Só.
domingo, outubro 10, 2010
Insónia
Quando entrou na sala de jantar não notou os três funcionários que, no balcão, cochichavam sobre os estranhos hábitos daquele hóspede que não dormia.
Pediu a refeição, que deglutiu sozinho, sem prazer, demoradamente, ignorando a deixa da criada do hotel no outro extremo da sala.
Há meses que é assim. Quando chego ao quarto, a cama está sempre feita, como no primeiro dia. Tenho a certeza que o homem não dorme.
Talvez isso seja costume na Europa.
A ignorância do comentário do jovem bagageiro, embora com ligeireza, não tardou a ser punida pelo gerente do hotel com uma palmada na nuca, palmada de muito génio ou prática, tendo em conta a força da referida e a ausência de ruído.
Não sejas estúpido. Todos os seres humanos precisam de dormir, seja aqui ou em qualquer outra parte do mundo.
A declaração foi sentenciosa e mais ninguém se pronunciou relativamente ao tema, não por convencimento mas por respeito ao poder silenciador da autoridade patronal. Mas foi o próprio gerente que, com mais atenção ao hóspede do que a que é devida ao zelo do cargo, rompeu o frágil silêncio nómada.
E o homem continua a pedir os dois cafés!
Assim era. Pediu, como todos os dias, ao almoço e ao jantar, dois cafés. Aquele era, na realidade, o único tomo da refeição de que desfrutava. Sorvia o líquido quente longamente, saboreando a fluidez, a suavidade, a sagacidade do percurso traçado dentro de si e, quando terminava, havia sempre um segundo café esperando-o, como uma lembrança revivida do primeiro.
Será do café que não dorme. Ou do calor da ilha. Não deve estar habituado.
Assim se retirou o gerente, determinando o seu próprio final para uma história que o intrigava mas não incomodava.
Notando a liberdade dessa ausência, o rapaz, num ímpeto mais devido ao seu carácter do que à sua idade, e opondo-se à fraca resistência curiosa da colega, aproximou-se da mesa e fez a pergunta que nunca tinha sido feita.
O homem respirou fundo como quem se livra de um peso que não é de bagagens de hotel e contou, sem interrupções, a noite em que pousou a cabeça no volante do seu carro e fechou os olhos à rapariga que se atravessava à sua frente.