quarta-feira, agosto 10, 2011

Depois de uma noite que existiu por

dias
meses
anos,

abriu as cortinas e a luz entrou

na sala
na mente
na alma

Amontoou na mochila

roupas
forças
vontade

e saiu. Não sabia onde ela estava. Mas acreditava. Encontraria

O dia
O lugar
O sentido

onde paira o fim da órbita escrita pela história dos dois para, de regresso ao começo, serem

ele
ela.

Só.

terça-feira, agosto 02, 2011

Uniões

A mesa era longa de gente e de afectos. Comiam-se histórias de feitos passados, bebiam-se piadas e discussões e nos ventres de cada um soavam gargalhadas digestivas. Assim são as reuniões que se fazem esperar. Da ansiedade ou falta dela nasce o desejo maior de querer e ser querido, de ouvir e ser ouvido.

Unidos por laços ditados pela genética, pela circunstância ou pela afinidade, os convivas brindavam, como brindam as pessoas alegres. 

Ela entrou, suave. Não falou. Não sorriu. Não fosse a extraordinária força da sua simples presença e todos se teriam alheado daquela entrada, como de outros vaivéns decorridos na sala.

Apagaram-se as conversas, os sorrisos e o marulhar de copos e talheres. Fosse dia e ter-se-ia apagado o Sol também. Ninguém precisou de olhar para saber que, ao lado dela, na longa mesa de gente e afectos, tomou assento o peso negro e silencioso da ausência que nunca ali deixou de se fazer sentir.

segunda-feira, maio 09, 2011

Marés

Houvesse mais mar dentro dele e mais profundamente ela mergulharia. De tão abandonado mergulho, afundou-se na sua alma azul e, ondulada, fez-se mar.

terça-feira, abril 26, 2011

Noite

A lua ia alta e o homem jorrava impropérios desvairados e cambaleantes. Desvairada e cambaleante ia também a embriaguez terminal que levava na alma.

No percurso incerto que um pé traçava sem acordo do outro, viajava um inusitado propósito de atingir nas entranhas todos aqueles cujo imediato diagnóstico não fosse uma definida infelicidade. A cadela, sempre dois passos atrás, permanecia mulher cautelosa e envergonhada, entre o cuidar e o fugir.

O abalo do qual o homem era epicentro alargava-se na proporção dos decibéis e a força destrutiva era tão determinada que, em breve, não restava ninguém no passeio. Sentiu o arrepio quente da frustração e, fazendo-se onda sem praia, elevou uma tábua extraviada e assentou-a nas costas da cadela.

O lamento dela mal se ouviu. Foi o ganido dele que ecoou toda a noite pelas ruas da cidade civilizada.

domingo, março 27, 2011

Tributo

Na minha família somos todas mulheres de amor. Não de amores perfeitos e irreais. De amores que cuidam, de amores que querem, que lutam e protegem. 

A minha família é uma família de mulheres em essência. A alma da minha família é tão feminina quanto uma alma pode ser. Nascemos com o mandamento genético de cuidar e prover, mesmo as que trocaram as raízes das duas margens do rio Minho para dispersar as suas sementes pelos ventos das cidades.

As mulheres da minha família não se negam. São mulheres da minha família onde quer que estejam, quem quer que sejam. Somos mães, esposas, filhas, irmãs. Vivemos por amar da mesma forma que o mar vive por ser mar. As mulheres da minha família são forças da Natureza mesmo quando choram. As mulheres da minha família são forças da Natureza ainda que não o saibam e ninguém lhos diga. 

As mulheres da minha família lutam e sobrevivem para amar e viver. Assim somos. É esse o nosso sentido.

domingo, fevereiro 27, 2011

Filha de pai incógnito. 

Doía-lhe aquela bruta impressão de um trauma pessoal na sua identidade. Não existiam designações de "traída pelo marido" nem mesmo um "companheiros múltiplos" e parecia-lhe de mau gosto que a sua orfandade fosse assim exposta como condição inerente.

Ao longo da infância sentiu-lhe a falta nos dias do Pai. Na adolescência, quando discutia autorizações e horários para incursões nocturnas. Desconhecia as didascálias de um papel paterno e sempre lhe pareceu que a personagem materna mantinha uma presença mítica no palco da sua vida. Agora, já adulta, não era a existência que cobiçava mas o nome. Só um nome que cobrisse de normalidade aquele rótulo de pessoa digna de dó. Com a morte da mãe, havia perecido também a hipótese de dar um nome ao macho cobridor a que o Registo Civil chamava pai.

A primeira vez que a pomba lhe bicou o vidro da cozinha, ignorou-a. Saiu, apressada, para trabalhar e não voltou a lembrar o assunto até, já noite, chegar a casa e sentir o barulho alarmante de uns minúsculos golpes pneumáticos. A pomba permanecia no mesmo sítio, no mesmo intento.

Afugentou-a, bateu os pés no chão, vozeou. O animal, firme no objectivo mas determinado na sobrevivência, voou. Na manhã seguinte, o mesmo local, a mesma pomba, as mesmas bicadas. Mas um papel.

Amarelado, pequeno, enrolado na perna da pomba. Decerto sempre ali tinha estado ainda que ela o não tivesse notado. Abriu a janela. O animal caminhou pela mesa, sobranceiro às asas e estacou, solene. Ela retirou o minúsculo papel e, desenrolando,

Uma morada. Um contacto. 
António, 
Teu pai

Afagou a pomba e empurrou-a pela janela. Voltou a enrolar o papel, que rapidamente destinou ao caixote do lixo. Sorriu e saiu. Feliz.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Empatia

Se à antipatia fosse dada a escolha da sua aparência, seriam aqueles os olhos, o cabelo, a expressão que escolheria. A impressão que ficava a quem a conhecia, não era a de que ela era antipática mas a de que era a própria antipatia.

Perante gracejos e afeições, a postura da criatura elevava uma massiva superfície anti-aderente, repulsiva. E esse incómodo atributo destacava-se ainda mais naquela família, dada a partilhas, a abraços e gargalhadas. Foi à festa menos por vontade de participar das comemorações do que para evitar que o namorado fosse sem ela. Não entendia que ele pertencesse àquele clã que agora via, onde a existência se desenrolava, intrometida, num enorme espaço público onde a privacidade não cabia.

À vulgaridade das questões que lhe dirigiram respondeu com um silêncio nauseado, desencorajador. No entanto, em vez de dissuadir as atenções, limitou-se a afastá-las. Num pequeno círculo, perto de si, comentava-se com amargura e um certo tom de indignação a escolha (pouco) amorosa do benjamim. Como num concílio tácito, decidiram votá-la à transparência.

O vaticínio teria sido outro se soubessem dos dois primeiros anos de existência incómoda para quem não a desejou e dos dez anos, casas, pais que lhes sucederam ou dos últimos quatro passados numa instituição onde nada nem ninguém era seu.

Ele era seu. Ele era a sua empatia.