quinta-feira, junho 14, 2007

Pequeno Amor

Não era um grande amor nem sequer um amor assim-assim. Cheirava a água e nos passos trazia um som cor de cereja. Os pesados caracóis de canela pendiam em cachos sobre os olhos transparentes e nas mãos de pardal trazia uma romã.
A velha levantou os olhos do bordado e viu-o chegar. Quase delicado, quase cambaleante, cada um dos passos que o tornavam mais e mais próximo da postura ancestral da mulher deixava no chão de pedra uma marca de areia.
Quando pousou a mão sobre o ombro da velha que o tempo havia feito gruta, fê-lo com firmeza e com um sorriso ondulante que a fez lembrar a sua primeira e única viagem de barco.
O baloiçar da cadeira parou a um gesto dele. Com a sensualidade e o cuidado ternurento de quem despe a amada, ele abriu a romã. Trincou o interior rosado e o fruto pareceu ceder a um arrepio de carícia. Voltou a trincar, uma e outra vez, num prolongamento cruel do olhar cansado e atento da velha, pousado sobre os lábios e os bagos sumarentos.
Depois de segundos eternos os lábios dele selaram-se e, com ansiedade, estendeu-lhe o que restava do fruto gotejante. A frágil mão dela envolveu o pulso dele e empurrou mão e fruto com determinação. Não provou. Não ia sujar o bordado.

O ranger da porta havia já antecedido outro e outro e outro pequeno amor.

quarta-feira, maio 02, 2007

Pegadas

Os meus sapatos estão cansados. Rasgados, alargados, sujos. Sapatos.

Suportam três anos de pesos pesados e outros mais leves. Carregam tons de negro e azul por dentro. Trazem pedaços soltos de solos e lembranças por fora.
Os tacões gastos esqueceram já a determinação de contar quantos foram os pisos que galgaram em corridas escuras e esvoaçantes. Perderam a ansiedade de descobrir novos trilhos. Deixam-se ficar, preguiçosos, no único chão que reconhecem como seu e é sob a melancolia do cheiro a terra molhada que lembram o melódico eco do toc-toc pela calçada.

Sapatos. São só sapatos. Mas eu não posso continuar descalça...

sábado, março 17, 2007

Dia

Na escuridão do quarto a menina rezava para que a noite acabasse. O seu deus de peluche recebia do alto da prateleira promessas de bom comportamento e de beijinhos às tias feias em vez das habituais caretas. As palavras brotavam baixinho e fluiam em cataratas sem sentido. De olhos fechados, a noite não parecia menos noite e o dia não chegava.

O choro baixinho deve ter acordado o abraço que chegou e abriu a janela.

O dia era branco, claro. E o abraço... quente, quente.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Raízes

Nascera naquela falésia sem saber como nem porquê. As gotas de água salgada que as ondas lhe traziam todas as manhãs já não a feriam. Recebia-as menos por obrigatoriedade do que por brincadeira. O cheiro a mar era tão forte que fez dele o seu perfume, sem nunca se questionar qual era o seu. Por ali não havia nenhuma outra flor, mas não havia solidão que a importunasse. No seu mundo era única e não perdia tempo a imaginar que pudesse haver outras com raízes, folhas, pétalas e caules iguais aos seus.
Um dia o vento trouxe-lhe um cheiro estranho. Cheiro acre de homem. Um passo, outro passo e logo uma mão áspera na sua corola e um nariz bisbilhoteiro encavalitado no seu cálice. Os anos avançados do senhor estavam assombrados com a visão de uma existência tão delicada num ambiente tão agreste. Achou-a a mais bela flor de sempre. Fez um buraco no solo que a acolhera durante tantos anos, retirou cuidadosamente as raízes e levou-a consigo.
Plantou-a no seu resplendoroso jardim, junto de tantas outras flores tão delicadas quanto intocáveis. A obesa mulher saiu de casa e num relance ditou a sua sentença: "Coisa mais feia! Não é uma flor, é uma erva daninha." E na verdade, mesmo aos olhos do jardineiro, junto das outras, a flor parecia mais feia, mais seca e definhada. Regou-a uma primeira vez e esqueceu-a.

Sempre foi a minha preferida pela personalidade forte, mesmo quando as pétalas foram caindo uma a uma no chão. Ouço um murmúrio que me diz que o cheiro a terra molhada a incomodava. Mas pode ser só alucinação trazida pelo mar, aqui, no mesmo sítio onde o meu pai a encontrou.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Gosto

Gosto de pensar que, quando escrevo, alguém vive intensamente os meus textos. Gosto de pensar que quando não escrevo por longos períodos de tempo é porque estou a viver intensamente.

sábado, novembro 25, 2006

Estrelas cadentes

Havia no céu uma estrela que esperava. Passavam os dias monótonos e as noites longas e, em silêncio, sabia o que esperava. Não sabia quantas noites teria de brilhar ainda, mas esperava como quem não espera, porque quem espera tem a ansiedade de deixar de esperar. E a estrela brilhava, serena, e às vezes esquecia que o momento podia chegar.
Um segundo só bastou para interromper a sua espera. Piscou três vezes como quem suspira, e lançou-se no infinito do cosmos, espalhando brilho por onde passava, como quem sorri.
Cá em baixo, a anos luz de distância, havia um céu estrelado a brilhar num olhar encantado. "Nunca tinha visto uma estrela cadente..."

terça-feira, julho 18, 2006

Pedra

O dia estava cor de nevoeiro e no ar mais não havia do que uma música de framboesa. No centro da praça uma estátua de pele, osso, sangue e coração. Estátua mais por hábito do que por vocação, tinha a textura da pedra e cheirava a tempo.

Sentado à sombra da estátua, todos os dias o louco da vila, solene na sua insanidade, babava e gritava a mesma história da mulher que, delirante de amor por um caixeiro-viajante, prometera a si mesma esperá-lo para um dia consumarem o nobre sentimento. O viajante, ignorante dos desvarios amorosos da mulher que só vira algumas vezes por inerência da profissão, nunca lhe havia falado dos sete filhos e da casa quente que também o esperavam no final de cada viagem.

O louco continuava a sua história, já de pé e lançando cada vez mais longe as gotas de saliva. A mulher, esperando sempre, tinha-se tornado estátua, menos por magia do que por comodidade, e estava ali, diante de todos, no centro da praça.

Tentando parecer mais respeitável, o louco compunha com dedicação os vários pedaços de pano que lhe cobriam o corpo antes de prosseguir a sua narrativa, agora com um ar mais ridículo do que antes. Em tom profético anunciou que no dia em que o viajante voltasse, a estátua ia desaparecer e só assim todos os habitantes da vila iam acreditar que ele não era louco.

Um dia amanheceu e a ladainha do louco já não era a mesma. Gritava, desesperado, que a estátua tinha desaparecido. Os poucos que lhe deram ouvidos deitaram um olhar rápido ao centro da praça e, vendo pedra no mesmo lugar, continuaram o seu caminho.

O louco da vila nunca deixou de ser louco, mas só os seus olhos viram que agora no centro da praça estavam sete estátuas pequeninas habituadas a esperar um pai que chegava sempre.