Nunca se tinha apaixonado. Nunca o havia dito mas tão-pouco o escondia.
Era viúva no papel mas aquele homem primitivo que a levou ao altar e lhe amaldiçoava a infertilidade nunca lhe tinha provocado o mínimo sobressalto. Sempre lhe serviu a sopa com a naturalidade com que atirou o primeiro punhado de terra sobre o seu caixão.
Num final de manhã, sentada no alpendre a balançar sobre a própria solidão, sorriu ao carteiro que chegava e sorria. Como sempre chegou e sorriu. E, com aquele sorriso, chegou uma enorme onda quente, feliz, que se formava na boca do estômago e rebentava nas mãos, nos pés, no cabelo.
Antes que tivesse tempo de falar (só de sentir), caiu por terra. E aí ficou. Deixou de ser.
O destino resgatou-a ao desgosto de descobrir que o amor também morre.