quarta-feira, novembro 17, 2010

Cão

Ninguém percebia ao certo porque é que ele tinha escolhido aquele cão.

O animal, coxo, de pêlo baço e olhos permanentemente remelados, arrastava-se a si e aos seus muitos anos caninos nos curtos e dolorosos passeios nocturnos, cada vez mais dolorosos, cada vez mais curtos.

Ele próprio, ainda jovem, ainda sonhador de mundos perfeitos, não percebia porque é que, naquela bafienta manhã passada no canil, havia insistido em levar para casa o Cão, a despeito de todas as tentativas da responsável para o dissuadir. Era uma química irracional a que os unia (se é que as há racionais). Ele não percebia de velhice, o Cão já não recordava a juventude, e assim se acompanhavam, um pé e uma pata em cada mundo.

Numa manhã de Inverno, o porteiro encontrou-o na rua, à porta do prédio.

Nu. Gelado. Sem sentidos.

O homem levou o rapaz para casa, deitou-o, procurou cobertores que lhe cobrissem o tom azulado da tez, botijas de água quente que lhe devolvessem os pés ao chão.

O Cão, coxo, remeloso, arrastado, mas sobretudo velho, lançou-se sobre o corpo inerte e, naquela manhã bafienta, deixou-se ficar e devolveu-lhe todo o calor acumulado desde a saída do canil.

Quando despertou, outra vez quente, outra vez jovem, deixou de acreditar em mundos perfeitos. Era o Cão quem jazia inerte, agora, cumprido o mais humano dos desígnios.

domingo, novembro 07, 2010

Sem saída

Deitada, como sempre estava, sentiu o cheiro familiar da cebola a dourar no azeite. Ouvia a filha cantarolar uma qualquer melodia inventada enquanto o sol se punha, preguiçoso.

Quis voltar-se na cama, mas não a chamou. Doía-lhe aquela dependência esmagadora de amor-próprio, aquele lento desgaste de dignidade. O cantar aliterado era reconfortante. Fechava os olhos e era ela quem cantava, cozinhava e geria uma casa de sete. Era ela quem voltava os filhos na cama, quem supria as suas necessidades infantis.

Acordou da fantasia, velho traste imóvel, com o bater exacerbado da porta. Aquele bater de porta que dissolvia cheiros, sons e sabores. A cantoria parou e logo um silêncio atemorizado, nauseante.

Não tardou a ouvir o grito masculino, mote viril de um poder cobarde que se alimenta de vida e alegria. Não voltou a ouvir a voz límpida da filha até que o som de uma bofetada se impôs, eco repetido de um pesadelo real. Um pequeno grito, agora abafado, tímido, já não límpido, já não cantarolado.

Não gritou também ela, não chorou. Encolheu-se mais nos lençóis e rezou baixinho à morte, para que chegasse depressa.

quarta-feira, outubro 20, 2010

Diferenças

O seu filho é diferente.

Um qualquer líquido frio, viscoso, transparente demorou-se no topo da sua cabeça para logo descer, insolente vulcão, até aos pés. Era uma tristeza dominadora, daquelas que subjuga e faz  todas as memórias felizes reféns de um assalto escuro e silencioso. Olhou o filho.

Sentado à pequena mesa colorida do hospital, era uma criança normal. Os lápis eram iguais aos das outras crianças, as cores as mesmas, os traços idênticos. E aquele médico

O seu filho é diferente.

Diferente seria a ausência de amigos na escola, o silêncio opressivo face a um cumprimento ou pergunta, a insistência inabalável em brincar com os dinossauros, sempre e só com os dinossauros, a reticência atemorizada em trocar o pijama azul, já curto para pernas e braços, já fino demais para aquecer, já não azul. 

O médico continuava a explicação, lançando palavras no abismo para onde as palavras caem quando ninguém as quer. A sua vontade era de trocar de papéis com o filho, deixar que ele assumisse os seus sapatos 40, as suas responsabilidades de crescido, deixar que ele lhe dissesse, ao seu eu criança, que tudo vai correr bem, que este médico é um pesadelo e que não tarda vamos acordar confortáveis e protegidos dentro do pijama azul.

Diferente pode ser bom, não é, filho?

Foi a única frase, oca, vazia, inútil, que o seu cérebro lhe enviou, também ele oco, vazio e inútil por aqueles momentos.

Ignorando a interpelação do médico, como havia feito com todas as anteriores, anulando-o do quadro hospitalar, a criança levantou-se e, oferecendo a pequena mão à mão inerte do pai

Diferente é diferente. Só.

domingo, outubro 10, 2010

Insónia

Quando entrou na sala de jantar não notou os três funcionários que, no balcão, cochichavam sobre os estranhos hábitos daquele hóspede que não dormia.

Pediu a refeição, que deglutiu sozinho, sem prazer, demoradamente, ignorando a deixa da criada do hotel no outro extremo da sala.

Há meses que é assim. Quando chego ao quarto, a cama está sempre feita, como no primeiro dia. Tenho a certeza que o homem não dorme. 

Talvez isso seja costume na Europa. 

A ignorância do comentário do jovem bagageiro, embora com ligeireza, não tardou a ser punida pelo gerente do hotel com uma palmada na nuca, palmada de muito génio ou prática, tendo em conta a força da referida e a ausência de ruído.

Não sejas estúpido. Todos os seres humanos precisam de dormir, seja aqui ou em qualquer outra parte do mundo.

A declaração foi sentenciosa e mais ninguém se pronunciou relativamente ao tema, não por convencimento mas por respeito ao poder silenciador da autoridade patronal. Mas foi o próprio gerente que, com mais atenção ao hóspede do que a que é devida ao zelo do cargo, rompeu o frágil silêncio nómada.

E o homem continua a pedir os dois cafés!

Assim era. Pediu, como todos os dias, ao almoço e ao jantar, dois cafés. Aquele era, na realidade, o único tomo da refeição de que desfrutava. Sorvia o líquido quente longamente, saboreando a fluidez, a suavidade, a sagacidade do percurso traçado dentro de si e, quando terminava, havia sempre um segundo café esperando-o, como uma lembrança revivida do primeiro.

Será do café que não dorme. Ou do calor da ilha. Não deve estar habituado.

Assim se retirou o gerente, determinando o seu próprio final para uma história que o intrigava mas não incomodava.

Notando a liberdade dessa ausência, o rapaz, num ímpeto mais devido ao seu carácter do que à sua idade, e opondo-se à fraca resistência curiosa da colega, aproximou-se da mesa e fez a pergunta que nunca tinha sido feita.

O homem respirou fundo como quem se livra de um peso que não é de bagagens de hotel e contou, sem interrupções, a noite em que pousou a cabeça no volante do seu carro e fechou os olhos à rapariga que se atravessava à sua frente.

segunda-feira, setembro 27, 2010

Mesa

Passava pouco do meio-dia quando a senhora entrou. Apesar da grande disponibilidade de mesas, não parou para esperar que alguém a encaminhasse nem pareceu dedicar qualquer pensamento à escolha do sítio ideal. Sentou-se na mesa mais próxima da porta, como quem não tem tempo a perder em inúteis viagens entre porta e mesa, mesa e porta. Quando a empregada de mesa se aproximou para deixar o menu, não a deixou sequer pousá-lo e, sem soerguer o olhar,

Quero empadão de carne, por favor.

A rapariga, desequilibrada entre a força da decisão e a estranheza do pedido, fez da educação malabarismo.

Lamento muito, minha senhora, mas empadão não temos. Mas posso recomendar... 

A frase ficou suspensa, suspenso o som, a expressão, a admiração da rapariga.

Quero empadão de carne, por favor. 

Sem sobressalto, sem o costumado tom azedo da reclamação, da sugestão obrigatória, da opinião desnecessária. Com o mesmo tom sereno de quem, pela primeira vez, materializa em palavras o prato que leva na imaginação.

Vou ver com a cozinha o que se pode fazer.

E foi. A bandeja encheu-se de pratos para outras bocas entretanto chegadas e a expressão de desprezo do cozinheiro face ao pedido especial pareceu ditar o destino da refeição da senhora. Enquanto se encaminhava para a mesa, treinando, a cada passo, a melhor tradução para a expressão do cozinheiro, observou-a. A senhora teria já alguma idade mas era uma idade cuidada. Os lábios pintados num tom discreto, o colar redondo pousado sobre o peito tapado, o cabelo avolumado de rolos e secadores.

Ainda bem que alguém me atende. Quero empadão de carne, por favor.

O pasmo da rapariga não terá durado mais do que alguns segundos, ainda que longos.

Olhe minha senhora, eu não posso ser mais rápida do que sou e, como já lhe disse, não temos empadão e o chefe de cozinha também não o pode estar a fazer agora, entendeu?

Não terá entendido.

Quero empadão de carne, por favor. 

A paciência da rapariga esgotara-se e a sua indignação crescia dentro da efémera bolha da educação quando uma exclamação a interrompeu.

Mãe! Andamos todos à sua procura!

E, reparando na rapariga,

Eu peço desculpa. A minha mãe tem um problema... 

Apontando discretamente a própria cabeça, entristecendo o olhar, esboçou um hercúleo sorriso. Uma sensação quente percorreu a memória da rapariga.


Não tem problema nenhum. Se puder esperar, eu reponho o segundo prato na mesa e, enquanto conversam, fica pronto o empadão.

quinta-feira, setembro 23, 2010

Palhaço

O sol pingava, macio, na sua cara maquilhada e ele sorria, divertido, cómico,

Apalhaçado.

As gargalhadas que provocava estendiam-se pela perpendicularidade simpática da avenida, fosse pela ternura dos jactos de água cuspidos por flores de natureza felpuda, fosse pela empática gravidade da força que insistia em levar ao chão as calças balofas.

As piadas alinhavam-se em fila indiana, como as crianças, e ele distribuia-as por quem passava mesmo por baixo do seu nariz vermelho. Assim era há tempo suficiente e ele gostava que assim fosse.

Atrás da infantil multidão que o coroava, vislumbrou a filha, os seus caracóis de canela, a sua pele alva. Mas não os olhos grandes, amendoados (iam pousados no chão, como as suas calças balofas). Não o seu sorriso de mel (ia escondido, como o seu jacto de água).


Olha Mariana, é o teu pai!

O menino apontava, divertido, crueldade própria da empatia infantil.


Não, não é. É só um palhaço. 

Desapareceram por entre cabeças igualmente pequenas, igualmente indistintas, diferentes só na vergonha.

Essa noite, não houve água, creme ou loção que removesse a profundidade da maquilhagem, a intensidade do desgosto. Ficaria, para sempre, palhaço.

sábado, setembro 18, 2010

Singular

Não foi uma paixão à primeira vista, porque a vista não é dada a projectos sentimentais tal como o coração não tem pretensões de ver. Foi uma simpatia, uma empatia, um ímpeto que esvazia a mente.

Ela falava e ele sorria pelas palavras (dela) que via, coloridas, a pairar no ar.

Tens umas manchas no cabelo.

Foi dito de forma desinteressada, sem outros fins que não os de produzir som e demonstrar os seus dotes observadores. Nos ouvidos dele, porém, soou o apontar de uma falha, de um defeito que podia corrigir.

As duas manchas brancas eram, desde o berço, salpicos de originalidade, marcas de uma identidade criativa.

É para pintar.

No cabeleireiro, distraídos das singularidades daquele cabelo, fez-se a vontade de cliente para o encontro dessa noite chuvosa.

Ela, ao longe, sob um guarda-chuva que cedia a rugidos de tempestade, procurava as manchas brancas sem as encontrar. Ele, abrigado num alpendre improvisado, esperava vê-la passar. Desencontraram-se.

Semanas, meses, anos passaram e os cabelos brancos, assim negados, nunca mais voltaram a existir.