Cantaram os parabéns à menina em várias línguas, como poliglotas que eram em idiomas inventados de palreios, trejeitos, caretas e gargalhadas.
Eram tantos e tantos. Eram os frutos de um amor ancestral e os seus amores e os seus próprios frutos, alguns já com amores e frutos também, tal era o sucesso da combinação da tepidez destes e da frescura daqueles.
Chamavam-lhes família, por inerência de laços, mas eram mais uma tribo, espalhados que estavam pelo mundo, ou por parte dele.
As palmas sobrepunham-se aos eh's, uma e outra vez, com pretensos sotaques idiomáticos, felicitando os seis anos da menina que, reticente primeiro, determinada depois, trincou a vela cor-de-rosa, inocente superstição que um produtor de cera, também ancestral, também divertido, terá inventado.
Pede um desejo!
As vozes erguiam-se em pedidos ansiosos, quase imperativos, como se o desejo da criança fosse aparecer ali mesmo, de repente, diante dos seus olhos, desfeita a nuvem de fumo e o puuufff, reconhecida onomatopeia infantil.
A menina fecha os olhos (todas as crianças sabem que é ritual obrigatório no pedido) e logo os abre, sorridente.
O que pediste?
A mãe, instigadora de revelações, não tarda a ser vaiada pela curiosidade violadora da privacidade infantil e é num murmúrio envergonhado e ternurento de pequeno deus que explica.
Se eu não souber, não o posso tornar realidade.
"não me perguntes quem sou. não me perguntes nada. eu não sei responder a todas as perguntas do mundo. pousa os lábios sobre a página. devagar,muito devagar. vamos beijar-nos."
sexta-feira, agosto 13, 2010
Desejo
quarta-feira, agosto 11, 2010
Gelo
O médico deu-lhe a notícia sombriamente, numa qualquer manhã soalheira de Julho que a entranhou de Inverno. Não teve medo de morrer, não pensou em tudo o que ainda queria fazer, não sentiu pena de si própria.
A mãe.
A mãe teria medo que ela morresse. A mãe pensaria em tudo o que ainda queria fazer com ela. A mãe teria pena de não morrer na sua vez.
Deixou o carro no parque do hospital e foi a pé até casa, pensativa, molhada por todas as pequenas gotas que o tempo deixava cair de si próprio.
Ia chegar a casa, preparar um chocolate quente, ligar à mãe para que viesse e esperá-la à janela, vendo cair todos os pequenos flocos de neve que mais ninguém via.
Tudo isso aconteceu, dentro de si, a caminho de casa. Mas, por fora, era o seu portão, o seu jardim, a mãe de joelhos,
um sorriso-verão de mãe-terra.
Oh, já chegaste. Queria fazer-te uma surpresa, arranjar-te as rosas, deixar-te o jardim bonito.
A mãe, notando qualquer sombra no rosto da filha, franziu o sobrolho, sulcando na testa uma ruga vertical, um abismo de pressentimento temeroso que nunca mais a deixou.
Ela sorriu, já Outono, e ajoelhou-se Primavera, para a tranquilizar.
Não é nada.
Cancro é palavra-gelo para o coração quente de uma mãe.
quinta-feira, agosto 05, 2010
O colar
Quando chegou, bem cedo, para abrir a ourivesaria, havia um senhor de cabelo cor-de-gelo tão encostado à montra que parecia conseguir transpor as barreiras de grades e vidro, quase líquidas face àquela atenção tão ávida.
Esse colar é uma beleza, não é?
De tão sumido naquele momentâneo epicentro do seu mundo, o velho estremeceu. (Abalos de homem também acontecem.) Ergueu a boina, inclinou a cabeça e sorriu, culposo, um daqueles sorrisos envergonhados e frescos, perfeitos na sua sinestesia distraída.
Desculpe. Não o vi chegar. Sim, é tão bonito. Todas as manhãs páro para o ver, para ver se ainda está, se ainda ninguém o levou, coitado.
Porque não o leva o senhor?
Para a minha neta, sim. É menina que merece. E que bem lhe ia ficar na pele morena. Mas não, na volta não quer, não é ao gosto.
Falava em voz alta mas era para si próprio que o fazia, num monólogo que devia mais à persuasão que à velhice. Ergueu a boina, inclinou a cabeça e sorriu um sorriso de despedida, de obrigada e bom dia, ou vice-versa, coube ao ourives entender.
Ao entrar na padaria, mesmo ao lado, para comprar o pão, agitou no bolso, tristemente, a moeda de um euro que trazia.
terça-feira, julho 27, 2010
Sentido
Temos que ir comprar o aparelho.
Dizia que sim, sempre que sim. Às vezes fingia mesmo não ouvir, afinal era essa a abstracta deficiência a que o dito aparelho vinha acudir. Olhava a mulher, ainda tão bonita, ainda tão cheia daquela magia das mulheres bonitas, sem que ela reparasse, perdida em mil e um procedimentos tão quotidianos quanto inúteis, em tempo disfarçado de pressa. Ele, ainda tão encantado, ainda tão cheio do enlevo dos homens encantados por uma mulher bonita.
Vamos comprar o aparelho.
Foi ele quem lhe disse desta vez. Não porque tivesse finalmente percebido a sua derradeira utilidade, não porque sentisse a falta da audição límpida como dantes, não porque estivesse cansado de ouvir a frase já erodida. Fizera-o pelo mesmo motivo que o movera nos últimos quarenta anos. Pela tranquilidade dela. Pelo amor a ela. Por ela.
Saíram da loja. Ela, feliz, bonita, ancorada ao seu braço, sorria como um navio que chega a bom porto. Ele, feliz também, bonito por estar com ela, desligou subtilmente o pequeno botão do aparelho. O que ouvia chegava perfeitamente. Ela era, na realidade, tudo aquilo de que os seus sentidos precisavam.
sexta-feira, julho 23, 2010
De fadas
O Sol já se deitava no oceano mas o calor ainda era peganhento, húmido, quase pantanoso. O peditório era voluntário, sim, mas era inevitável a cada um dos presentes, de latinha a tiracolo e autocolantes na mão, sentir aquele incómodo molhado de quem foi ininterruptamente lambido por um qualquer, ainda que amigável e bem-intencionado, ser canino.
Quando o miúdo passou, absorto no conteúdo monetário da própria mão, perdido em somas, divisões e provas-dos-nove, ela decidiu abordá-lo, divertida.
E tu, pequeno, não queres ajudar?
Levantou a cabeça mas não olhou de imediato para ela. Sacudiu a cabeça, piscou os olhos duas vezes, como quem deixa um processo complexo em suspenso, e procurou a fonte da voz. Ela voltou.
Vejo que tens umas moedas. Não queres ajudar os meninos mais pobres que tu?
Disse-o com a inocente vaidade de quem é mentora de uma lição de vida gratuita, de quem exerce uma boa acção que, num espírito tão jovem, parece sempre dar mais frutos ou, pelo menos, mais contentamento. Por isso a resposta da criança a exasperou tanto.
Estas moedas são para um gelado. Eu até as dava mas vem aí a Fada dos Dentes e ela também pode dar algumas a esses meninos.
Interrompeu o parêntesis e seguiu, como se nunca tivesse sido interrompido. Ela ainda murmurou um Egoísta! mas não conseguiu ignorar por mais tempo as gargalhadas dos colegas.
Uma mulher de cabelos brancos repuxados no alto da cabeça, coberta de tule azul e envolta numa bolha de brilho amarelo, entregava uma saquinha tilintante, igualmente azul.
Para os meninos mais pobres que o meu afilhado.
Ela nunca mais duvidou que há algo de mágico, de amplificador, de inigualavelmente real na imaginação de uma criança.
sexta-feira, julho 16, 2010
Pinturas
O cheiro a tinta era intenso mas já há anos que deixara de o incomodar. Todas as profissões têm um perfume e à sua pertencia aquele, por inerência, e ele aceitava-o como o do seu próprio corpo, que, na realidade, só é cheiro para os outros, porque o proprietário o não sente.
Pintava a casa desses mesmos outros com o orgulho de quem lhes muda a vida, de quem lhes dá um novo rumo, de quem lhes alarga horizontes e oportunidades. Um bebé está para chegar, ele pinta azul-bebé, rosa-bebé, amarelo-pintainho. A humidade invadiu a casa de banho, ele pinta branco-frescura. A sala vai mudar de ambiente, ele pinta castanho-conforto, verde-natureza.
Prepara os materiais, assobiando estes pensamentos, enquanto o casal deixa a casa.
Eu disse-te que tirasses o diário do quarto porque vinha o pintor.
Oh, o pobre coitado às tantas nem sabe ler.
Quando regressam, mais tarde, o quarto anoiteceu em vez de amanhecer.
Mas o que é isto?! Eu escolhi amarelo-sol!
Se o pintor ainda ali estivesse, diria que ele próprio preferiu negro-ignorância.
segunda-feira, julho 12, 2010
Gota
Era assim, agora, no número 22 da Rua D. Nuno Álvares Pereira. Nas cordas, a roupa pairava sempre, fantasmagórico entretenimento de uma alma alheada.
Lençol, toalha, pano, meia, meia, novamente lençol.
A ordem variava: por cor, por tamanho, por modelo, por capricho, mas não faltava nunca roupa estendida. A máquina não tinha descanso, o tanque fazia-se assistente, lavava-se o sujo, o limpo, o assim-assim. Quando escasseava o vestuário por lavar, por abundância de estender, a mulher recorria a cortinas, tapetes, colchas, edredões, têxteis sabidamente pouco amantes de alvoroços lavadores.
Assim estava a mulher, agora, estendedora de roupa, alheada do irmão que passava por baixo, no carro negro, comprido, fúnebre, seguido de uma multidão de corvos tristes, lúgubres, encolhidos.
Os femininos olhos desgrenhados, se assim se pode falar de olhos, estiveram sempre na roupa, na corda, fixos como molas.
De um alvo soutien suspenso, uma gota caiu sobre o carro negro. Aquela peça de roupa libertara a mulher da oceânica lágrima que lhe afogava o peito.